Não te amo mais. Será?

Algumas coisas parecem nos dizer verdades irrefutáveis, e ainda assim pode ser apenas uma questão de perspectiva, de ângulo.

Leia o poema abaixo de Clarice Lispector:

Não te amo mais.

Estarei mentindo dizendo que

Ainda te quero como sempre quis.

Tenho certeza que

Nada foi em vão.

Sinto dentro de mim que

Você não significa nada.

Não poderia dizer jamais que

Alimento um grande amor.

Sinto cada vez mais que

Já te esqueci!

E jamais usarei a frase

EU TE AMO!

Sinto, mas tenho que dizer a verdade

É tarde demais…


Triste, não?  Parece o final de um grande amor!

Agora leia o poema de baixo para cima.  Leu?  E então?

Nossa língua portuguesa tem destas coisas. A vida muitas vezes também.   Às vezes temos que virar certas coisas de ponta cabeça para só então “sacar” o verdadeiro significado. Quando tudo parecer perdido, insista; pode apenas ser um disfarce, uma questão de perspectiva!

Um pouco de Clarice Lispector

Clarice não é com dois “ss”, mas com C. Esta seria a única coisa que ela diria ao repórter que a criticou ferozmente num jornal pouco antes de sua morte, caso lhe dirigisse a palavra. O fato é relatado pelo biógrafo americano, Benjamin Moser, no livro Clarice, da editora Cosac Naify.

Moser relata que se encantou com a subjetividade pouco comum presente em seus escritos. Conheceu-a quando estudava literatura num curso do idioma português, na Brown University, em Rohde Island, EUA, lendo “A Hora da Estrela”. Hoje, ele reside na Holanda. ” Foi paixão imediata, não fui eu que a escolhi, ela me escolheu” relata Moser, “não tem explicação”, define.

Ele a compara a Kafka, James Joyce e Virgínia Woolf. “Clarice Lispector já foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa” escreve Moser. Ela mesma teria afirmado: eu sou vós todos.

Por esta sua capacidade em perscrutar os sentimentos da alma humana em profundidade, revelando-os através dos seus personagens, algo pouco comum em sua época na literatura brasileira, é considerada a pioneira do existencialismo no Brasil.

Nascida na Ucrânia, Clarice chega ao Brasil com dois meses. De origem judia, foi por muitos considerada estrangeira, o que a indignava. “A minha terra não me marcou em nada a não ser pela herança sanguínea. Eu nunca pisei na Rússia”, e escrevendo para uma amiga, desabafa: “Eu, enfim, sou brasileira, pronto e pronto” relata Moser sobre sua biografia.

Em sua última entrevista, fevereiro de 1977, comenta: ”Quando eu me comunico com criança é fácil, porque eu sou muito maternal. Quando eu me comunico com adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma. Aí é difícil”.

Clarice morreu dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos, vítima de um câncer. Deixou uma vasta obra, entre romances, uma novela -A Hora da Estrela -, que virou filme em 1985, inúmeros contos, correspondências, crônicas, literatura infantil, antologias, etc. Diversas obras suas foram representadas no teatro e viraram filmes, documentários de TV e leituras de áudio.

Ela é publicada em diversos países: Alemanha, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos da América, França, Holanda, Inglaterra, Israel, Itália, Noruega, Polônia, Rússia, Suécia, República Tcheca, Turquia.

Este ano faria 90 anos.