A destruição do passado

Stille, Alexander. A DESTRUIÇÃO DO PASSADO – Como o desenvolvimento pode ameaçar a história da Humanidade. São Paulo, Editora Arx, 2005. 423p.

Stille, Alexander – É escritor e jornalista norte-americano. Especialista em Política e sociedade italianas. Autor de diversos livros, sendo um adaptado para o cinema: Excellent  Cadavers: The Máfia and the Death of the First Italian Republic (1995). Atualmente vive em Nova York e colabora com publicações para The Boston Globe, The New York Times e The New Yorker.

Esta obra do jornalista norte-americano, A destruição do Passado, cujo título em inglês éThe Future of the Past, tem como pano de fundo a questão de como conseguiremos preservar nosso passado sem deixarmos de vivenciar o presente, com toda sua tecnologia e mudança. Ao mesmo tempo, que a tecnologia disponibiliza instrumentos para pesquisar, encontrar e classificar achados arqueológicos com mais precisão, a agressão ambiental gerada pelo homem, poluindo e destruindo, incentivado cada vez mais pelo lucro, achata as diferenças e descaracteriza as manifestações culturais locais.

O livro é composto por onze capítulos, mas nesta resenha iremos nos ater aos capítulos 2 e 8, respectivamente.

No capítulo 2,  A Cultura da Cópia e o Desaparecimento do Passado da China,o autor relata as profundas diferenças que existem no modo de perceber as coisas, em culturas diferentes. O diretor do Instituto Italiano de Conservação, Michele Cordaro, quando foi visitar o famoso exército de guerreiros de terracota em Lington, ficou em estado de choque. Os chineses o levaram para o sitio arqueológico, e lá havia uma fábrica onde faziam réplicas idênticas, nos seus mínimos detalhes, de plástico. Deixavam inclusive uma imitação de lama, como se tivessem sido retiradas do chão. Estas cópias eram fabricadas com a permissão do governo chinês. A grande maioria das que foram expostas no ocidente, são uma fraude diz Cordaro. “Mas os chineses tem uma visão diferente, eles não percebem assim”.

No oriente, entre chineses e japoneses, existe a tradição de conservar através da cópia ou reconstrução, complementa Cordaro. Como usam muito a madeira, substituem as partes podres, e as obras se mantêm através dos séculos. Um exemplo que Cordaro cita, é o Santuário de Ise, no Japão, um templo xintoísta do século VII. Ele é destruído e reconstruído a cada vinte anos, mas os japoneses o consideram com mil e trezentos anos.

Stille viajou com Cordaro para a China e participou de alguns encontros com acadêmicos e pesquisadores chineses. A China fez uma parceria com os italianos, considerados grandes mestres em conservação e restauração, e nestes encontros  pôde  perceber in loco, a difícil tarefa de mostrar aos chineses, que copiar não é preservar e restaurar. Como o país tem interesse no afluxo de turistas ocidentais, está tendo que se confrontar com as noções ocidentais de autenticidade, originalidade e conservação. Além dessa percepção tão diferente das duas culturas, ainda tem a do regime político vigente, onde as ordens vem de cima para baixo e não são questionadas.

Como os chineses não têm um sentimento individual e particular de propriedade, pois todas suas grandes obras, como a Grande Muralha, a Cidade Proibida e os Guerreiros de X’ian são monumentos de trabalho coletivo, diferente das grandes obras ocidentais como a Capela Sistina, de Michelangelo ou a Última Ceia de Leonardo da Vinci.  É difícil fazê-los entender e ensinar a preservação ocidental da arte – o respeito pelo objeto e seu criador.

Stille conclui, que a atual liderança chinesa ainda parece acreditar que poderá construir uma economia de mercado sem abrir mão do poder político e aceitar  o pacote integral da democracia capitalista.

Conclusão:

Neste capitulo, o autor nos expõe um pouco do modo de ser chinês, esta cultura milenar, que é centrada em si mesma. É uma cultura de domínio de uns poucos, onde o povo não tem voz nem opinião, apenas faz. Com a lenta abertura de seus “muros de país proibido”, querendo entrar no mercado mundial, terão que deixar cair muito desse egocentrismo dominador, se não querem ficar isolados do resto do mundo, e com certeza não querem. Terão que abrir mão de algo, afinal, não se pode ter tudo.

Capítulo 8, Vivendo com Uma Língua Morta.

Aquí, Stille nos apresenta o padre Reginald Foster, um monge carmelita, para quem o latim é tudo, menos uma língua morta.

Ele vive no Vaticano em Roma, e é responsável pelas publicações e proclamações públicas da Igreja e assessora os papas. Além disso, é uma espécie de  missionário que ensina latim de graça, para quem se dispuser a aprender. Considerado o maior latinista da atualidade, dá cursos para professores de latim do mundo inteiro,  e ensina em todos os níveis, pois tem esperança de encontrar adeptos que queiram multiplicar e espalhar seu entusiasmo pela língua.

Pessoas contaram à Stille, que haviam proclamado canções em latim para as vacas do Castelo de Gandolfo e outras histórias pitorescas sobre os métodos nada ortodoxos de padre Foster aprimorar o latim. Assim, o jornalista se inscreveu num dos cursos para ver de perto.

“Porque vocês querem estudar latim? A PERGUNTA É, POR QUE TANTAS PESSOAS NÃO QUEREM ESTUDAR LATIM?” Com esta frase o padre inicia suas aulas. “O significado da sentença latina não vem da ordem das palavras, mas da terminação das palavras, entenderam?” continua o padre. E assim o autor relata as divertidas aulas de Reginald Foster, que coloca nelas toda sua paixão.

O interessante na história de Foster, é que ele veio de uma família bem comum, o pai era encanador no Milwaukee, (USA) e a mãe, dona de casa. Segundo seu relato, foram as severas freiras alemãs do colégio paroquial onde estudou, que ensinavam gramática “até sair pelas orelhas”, e ele gostava disto, que tudo começou. Dali para o latim, foi um passo. Ele se torna monge ainda nos Estados Unidos e em 1962 vai para Roma estudar teologia. O declínio do latim começou em 1960, como resultado da reforma do Segundo Concílio do Vaticano (1962-1965).

Foster é da ala liberal da Igreja. “Para mim, o latim é libertador, e os humanistas eram liberais”, diz Foster. Ele tem hoje um fã-clube dos amantes do latim pelo mundo.

Homem culto, de grande erudição, simples e bem humorado, como geralmente quem sabe muito, se torna. Foster leva seus alunos aos locais onde o latim foi vivido e falado. Sua sala de aula é Roma. Um doutor em história e literatura latina, o inglês, Paul Gwynne, confessa: “Ele não é apenas o melhor professor de latim que conheço, ele é simplesmente o melhor professor de todos que conheci. …Estudar latim com o secretário apostólico do papa, para quem a língua está viva, usando a cidade de Roma como sala de aula…mudou por completo minha visão da vida, realmente.”

Conclusão:

Com este relato, temos uma pequena mostra de uma grande personalidade, fazendo história com uma língua considerada morta, e que segundo o padre, é a base de toda nossa cultura.

Padre Foster nos ensina, que a paixão e o amor podem manter vivas, até as coisas que para a maioria são consideradas mortas, e que esta paixão, se for verdadeira, contamina outros e forma uma corrente viva.

Análise Crítica:

A obra de Alexander Stille aborda uma questão importante, da qual talvez poucas pessoas se ocupem: como preservar nosso passado, que é a base da nossa história, sem deixar de viver o presente, com toda sua gama de novos recursos e tecnologias. O desafio é como estes recursos serão usados, para não destruir os rastros dos que nos precederam. É uma questão complexa, uma vez que cada vez mais o fator monetário tende a ditar as regras, e não mais a ética e o bom senso, ou ainda um senso comum, de que se trata de algo que pertence à humanidade, e não a um país apenas.

O que ‘salva’ a questão abordada pelo autor, de alguma forma, são figurasidealistas que fazem a diferença, pela sua paixão individual por estas causas.     Obras como as de Stille, me parecem de suma importância, pois induzem à reflexão. Que seria de nós, se não tivéssemos uma história, que servisse de base para a nossa própria história pessoal?

Daí a importância de preservar, pois sem passado, as futuras gerações sofrerão de uma profunda amnésia cultural e existencial.